O útil e o fútil

Um F a mais. É o que inicialmente diferencia o fútil do útil. Um, tão discriminado. Outro, venerado dia a dia como um deus a quem entregamos nossas vidas.

No dicionário, útil é o que serve para alguma coisa. Já o fútil é leviano, frívolo, vão, inútil.

E levamos a sério o pai dos burros. Nem bem o sol levanta e já estamos a postos a serviço da utilidade. Trabalhamos para comer, sobreviver, comprar coisas. Opa: comprar o que é útil, claro.

Às lojas de roupinhas, sapatinhos e afins, vamos escondidos, na calada da noite, sentido uma culpa inútil e amordaçada. Para que o colar? Para que mais um vestido? De que serve um sapato cor-de-rosa se você já tem um vermelho?

E, enquanto o útil trabalha de sol a sol, o fútil cantarola deitado em uma espreguiçadeira à beira da piscina de um hotel cinco-estrelas. Vez por outra o útil limpa o suor e avista seu rival refestelado e com o melhor humor do mundo. E volta à pauta do dia azedo e abominando o prazer. Afinal para que serve o prazer?

Música, cinema, livros, estrelas, vinho, beijo na boca, pontos turísticos. Para que serve tudo isso? O valor do prazer mora justamente em seu desserviço.

A utilidade, não. Ela é quantificável. Cabe em gráficos de produtividade. Já o fútil, ah, o fútil não tem preço.

Verdade seja dita: a utilidade morre de inveja da futilidade. Volta e meia se sente usada, ao passo que a futilidade se regozija com sorrisos frívolos e gritinhos vãos. Ah, como a utilidade queria para ela esses prazeres levianos…

Que conquistemos o nosso direito de ser fúteis. Que estejamos longe de ser somente úteis. Que alcancemos um dia a qualidade de ser desnecessariamente necessários.

(Por Cris Guerra. Publicado na revista Gloss de março – número 42)

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Delph says

"I slept for a long, long time."

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“Oh, more, MORE!”

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Projeto Alice

Alice (Milla Jovovich) é uma diva. E assim como sua homônima de Lewis Carrol, está perdida em um mundo confuso e cheio de gente maluca. O problema é que eles não querem apenas confundi-la. Um descuido e Alice pode acabar virando jantar de zumbi. Esse é um dos modos mais simples de explicar a série Resident Evil, nas telas desde 2002, odiada pelos fãs dos jogos nos quais se baseia, e amada por aqueles que só acompanham os filmes, como eu. Ontem assisti a quarta parte da franquia, Afterlife, apresentada como “uma nova dimensão do mal”. Foi meu primeiro filme em 3D, e foi de fato muito bom.

 

Mas este post é sobre Alice e tudo o que ela representa. Algumas coisas que vou dizer vão parecer engraçadas, porque são mesmo. Como qualquer coisa baseada em um jogo, RE prima pelo absurdo. Vamos lá!

Uma das coisas que mais gosto em Resident Evil é que o mundo acabou e a Alice continua cheia de estilo! Onde ela consegue aquelas roupas? A nossa protagonista é, acima de tudo, uma itgirl. Ela improvisa e se dá bem. Transforma um casaco de aviador num vestido de inverno, um pedaço de tecido cáqui vira um lenço super estiloso. Ela é um McGyver da moda. Ah, está sempre maquiada. E muda o corte de cabelo.

Tirando esse aspecto superficial, Alice representa um ideal feminino. Costumo brincar que se os caras têm o Rambo, as meninas têm a Alice, “o Rambo de saias”. Se a gente pensar o Rambo como o máximo do ideal masculino, uma máquina de guerra, o valentão e coisa e tal, Alice é o ideal feminino deste século. Ela é uma máquina de guerra, e valentona também. No entanto, é extremamente feminina.

É incrível como o Paul W. S. Anderson desenvolveu a personagem, que não existe no jogo. A cena que marca o início da história é Alice acordando nua em uma banheira, depois de ter sido aparentemente atacada. Ela não se lembra de nada e está completamente vulnerável. Alice encontra apenas um vestido vermelho sobre a cama do quarto luxuoso onde estava. Vê um porta-retrato com uma foto dela e do também suposto marido no dia do casamento, e resolve sair de lá para entender o que está acontecendo.

Durante o primeiro filme ela passa por coisas terríveis junto com os sobreviventes presos no laboratório da Umbrella Corp. Encontra o tal marido (no qual provavelmente poderia se apoiar), descobre que o casamento era uma fachada e que ele estava mais perdido do que ela. Alice aos poucos deixa de ser uma garota frágil e assustada para dar lugar a uma mulher decidida a encontrar a verdade e a sobreviver, custe o que custar. Ela descobre sua força e informações suficientes do seu passado para entender quem é.

Vítima de uma experiência da Umbrella, Alice (ou “Projeto Alice” para eles) ganha poderes psíquicos, velocidade, força e capacidade de auto-cura. Nas suas palavras, “deixa de ser humana”. Mesmo assim, não fica se lamentando o tempo todo e vai à luta para tentar salvar os poucos sobreviventes e destruir os responsáveis pela devastação da terra. Até aqui ela parece uma criatura invencível, mas não é. Alice tem medo. Fica muito assustada com as coisas que vê, fica mesmo. Se preocupa com a segurança dos seus amigos, pois até sua presença pode colocá-los em risco.

E no meio de toda essa selvageria e horror, ela não deixa de ser mulher. Fico pensando no feminismo extremo, afirmando que as mulheres não só podem como devem ser iguais aos homens. Creio que se formos exatamente iguais aos homens deixamos de ser mulheres. Assim como uma mulher exageradamente feminina acaba se tornando uma caricatura de si mesma. O sangue-frio que Alice demonstra muitas vezes ao longo da história é combinado com toda a classe e delicadeza.

 Em Afterlife tem uma cena boba que exemplifica isso muito bem. Depois de fazer um pouso arriscado sobre um prédio em Los Angeles onde havia um pequeno grupo de sobreviventes, Alice sai da aeronave e ainda aceita que Luther (Boris Kodjoe) lhe dê a mão para ajudá-la a descer, como se estivesse em uma carruagem do século XIX. Quando Angel (Sergio Peris-Mencheta) tenta fazer o mesmo para Claire (Ali Larter), ela desce pulando sem nem olhar para a cara dele. É uma cena curta e engraçadíssima. Sem falar que Alice ainda encontra tempo para flertar com os caras que a interessam, mas isso é outro assunto. Hehehe.

Sou fã dela por esses motivos. Alice e Milla Jovovich quase se confundem, acho que um pouco pela visão apaixonada de Anderson. Ele e Milla se casaram nesse meio tempo, tiveram uma filha (Milla estava grávida na época das gravações do terceiro filme) e vivem felizes e contentes desde então. Ela foi modelo, gravou um CD (até legal), começou a atuar e abriu uma grife em parceria com outra estilista (A-ha! Daí a criatividade da Alice. xD), não necessariamente nessa ordem. Enfim, espero que você que não conhece ou não gosta da série leia isso e tente ver a história com um novo olhar, e depois me conte.

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A Place For Us

Look out ahead (Olhe pra frente)

I see danger come (Eu vejo o perigo vir)

I wanna’ pistol (Eu quero uma pistola)

I wanna’ gun (Eu quero uma arma)

I’m scared baby (Estou com medo baby)

I wanna’ run (Eu quero correr)

This world’s crazy (Este mundo está louco)

Give me the gun (Me dê a arma)

 

É incrível como o desespero e a fragilidade da voz da Polly Jean em Big Exit podem ser acalentadores. Esse CD, Stories from the City, Stories from the Sea, foi uma das bênçãos mais recentes que recebi. Ouço enquanto escrevo. A única música que conhecia dele era A Place Called Home. Há pouco tempo li 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer e lá estava ele, com outros três da P.J. Harvey e mais uns tantos do Nick Cave. Na verdade, Nick me levou até P.J. Muito por causa do clipe de Henry Lee, eu acho. No vídeo, um amor tão doce, uma cumplicidade comovente dos dois. A letra é brutal, violenta, como tudo em Murder Ballads, que também caiu em minhas mãos, mas não é tão abençoado, até mesmo pelo conteúdo, embora seja bom.

Disseram que Stories é o melhor disco dela. Corri para ele imediatamente. Foi uma benção, repito, porque é raro na vida encontrar uma lista de canções capazes de ler sua alma na época certa, na hora certa. As 12 faixas dele me trazem uma paz tão grande!  Já sentiu as batidas do seu coração chegando a um compasso harmônico? Considero-me uma pessoa de sorte por conseguir encontrar tranquilidade em meio a guitarras de acordes insistentes e oscilantes. Muita gente tem pavor. Só posso sentir pena.  É assim que ela abre o disco, com Big Exit, gritando que o mundo está louco, que ela está com medo, que quer uma arma (para se proteger ou para se matar?). Que mulher atualmente, diante das notícias que vemos todos os dias, não se sente assim?

Stories from the City, Stories from the Sea é urbano, melancólico, às vezes alegre, realista. Esse disco sou eu agora. Me encontrei naquelas palavras. Não sei se daqui a alguns anos vou continuar me identificando com ele. Nem sei se o meu atual modo de pensar e agir vai continuar funcionando bem como vem funcionando. Se vou começar a gostar do Thom Yorke depois do dueto deles em This Mess Whe’re In, ou se vou ser capaz de amar alguém a ponto de questionar o porquê de o mundo ser desse jeito, como em This Is Love. O que eu quero por enquanto é seguir pelos dias. A “invasão inglesa” ao meu MP3 será boa enquanto durar.

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Clark Kent

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Depeche Mode

Pra mim é paixão antiga.

Isso é música para mulher na casa dos 20, 30…                    

E para alguns paladares sensíveis abaixo dessa faixa etária, que encontraram neles o remédio para o pop engessado que tomou conta desse pedaço de século.

Depeche Mode é para aquelas mulheres que não querem saber de homens rústicos ao extremo, aqueles que te pegam pelo cabelo. Mas também não se interessam nem um pouco pelas figuras sensíveis demais, que te idolatram até o ponto de se acharem indignos de tocá-la.

As letras falam de um homem que sim, ama e admira a mulher, mas não esconde um desejo irrefreável por ela. E faz questão de seduzi-la dizendo o que pretende fazer e o quão prazeroso isso pode ser para os dois, principalmente para ela. Ele não fala isso nos mínimos detalhes, beirando a vulgaridade. No entanto, quando esses detalhes aparecem têm o mesmo efeito (desculpem se soar clichê) de um pedaço de pimenta no meio do chocolate. Primeiro o choque, depois a delícia da surpresa.

Então você fecha os olhos e se deixa levar pela melodia arrasadora, os teclados e os efeitos dos sintetizadores que criam os sons mais surreais e perfeitos. Indescritível.

Acima de tudo isso, ou melhor, casando com as coisas que descrevi, está a voz imperiosa e sedutora de Dave Gahan. Ele personifica o homem dessas canções.  Ai daquelas criaturas acostumadas à beleza pronta, acabada e indiscutível! A beleza plástica dessa nossa época. Não que não seja bela, é sim. O problema é que ela simplesmente não instiga. Prende seus olhos por algum tempo, mas não prende sua alma. Dave Gahan é esquisito, imperfeito. É um quadro de Picasso. Um retrato em preto-e-branco de Otto Stupakoff. A figura dele é capaz de aprisionar de várias maneiras possíveis. Não existe escapatória.

Depeche Mode é vício, é êxtase, uma vez nele não há como sair. É irresistível.

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Silly People (I Love It)

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Mês passado…

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